quinta-feira, 19 de setembro de 2024

eu gostaria de dizer

 

Eu gostaria de dizer que fecho meus olhos para poder ver o seu sorriso,

mas não é preciso estar de olhos fechados

porque em tudo, mesmo no que se esconde de mim

mora a sua alegria que preenche as minhas palavras.

 

Eu gostaria de dizer que só sei ser feliz ao estar diante dos seus olhos,

mas seria irreal,

porque nenhuma distância ou tempo seria capaz de me fazer esquecer que você existe,

e existindo, você torna o mundo perfeito,

e não há como ser infeliz em um mundo com a sua perfeição.

 

Eu gostaria de dizer que preciso segurar as suas mãos todos os dias

para me guiar pelo caminho mais belo dos sonhos,

mas não é verdade,

já que um toque sutil e despretensioso apagou todos os caminhos não perfeitos

e agora, só sei flanar sobre a deliciosa lembrança

do universo que você criou em mim.

 

Eu gostaria de dizer que o amor é tudo o que importa,

mas simplesmente te olhar por um instante é maior do que todo amor do mundo

e, por isso,

talvez eu não diga nada,

talvez você nem exista e eu só esteja escrevendo um poema bobo,

ou talvez bobo seja acreditar que se trata de um poema.

 

Eu sempre quero dizer coisas demais

porque as palavras nunca bastarão para me explicar o seu cheiro,

o som da sua voz, a textura da sua pele;

palavras são apenas pegadas atrás de mim,

que quando ditas, tudo já existiu.

 

Eu gostaria de dizer que você existe.

Eu gostaria de dizer que acabei de escrever um exercício romântico.

Mas eu não digo nada.

Porque nada é real,

assim como nada é ilusão.

 

Eu gostaria de dizer que fecho os meus olhos para sentir o seu sabor,

mas não existe sabor quando tudo é perfeição.

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Sorriso errado

Com o tempo, tudo o que se passa nos constrói

e aprendemos a direção para onde olhar.

Olhar treinado, desviado de obstáculos confusos,

olhar atento, refinado; aprendido com o tempo...

 

Mas nem todo o tempo que existe

nos impediria de olhar para o sorriso errado.

 

Não importa saber que a direção foi perdida,

que a resposta está quebrada;

não adianta entender as nuances da genealogia dos erros

e contemplá-las em meu aporte de conhecimento.

O que é do mundo está quebrado,

trocado de lugar,

errado em estar em si,

mas certo em errar,

porque não é meu.

 

E nem toda palavra que eu escreva

me impediria de olhar para o sorriso errado.

 

Um homem de palavras

e coração cético

abraçado em ilusões de um mundo criativo em demasia para estar certo

corrige o seu olhar

mas não apaga o fato olhado, o fato ilusionado

o fato deslocado da direção

que nunca foi a certa

por uma mente incerta, desencontrada

do que está quebrado

em um sorriso errado

guardado

em um canto pequeno, delicado,

dilacerado de poeira guardada, acumulada

de olhares ajustados.

 

E nem todo ajuste que aconteça

me faria esquecer da ilusão de um sorriso errado.

 

Feito em poema

meu ser é sorridente, barulhento, palavreiro demais

guardado num canto, atrás de si mesmo

olhando de longe as estrelas,

que parecem sorrisos

intangíveis em sua essência prima

 

o tempo me tornou sábio,

mas não acima da criação que confunde a minha realidade.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Soneto de papel

 Sonhei que o mundo era feito de papel

e que eu poderia imprimir nele todas as minhas palavras,

e sonhei que cada uma das palavras

faria do papel um novo lugar...

 

descobri que o mundo era feito de muros de pedras

onde não se pode escrever

e que as palavras, mesmo gritadas

paravam na pedra dura que não podiam transpassar.

 

Áspero demais para se escalar, forte demais para ser derrubado

contínuo, obscuro, feito para prender almas congeladas

de medo do que nunca lhes foi contado.

 

Sonhei que ao invés de muros existiriam palavras

rabisquei poemas com as unhas e

feri os meus dedos mais vezes do que posso contar...

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Ode à felicidade

Do que vale a vida se você se alimentar de dias tristes?

Reparou as flores em seu caminho ou preferiu prestar atenção na buzina dos carros, nos barulhos, fumaça e motos apressadas no corredor?

Viu os pássaros voando pelo céu (e acredite, eles voam todos os dias) ou preferiu se ater ao lixo no chão que suja o seu caminho?

Gostou do caminho ou se prendeu ao cansaço de andar? O tempo gasto de um lugar ao outro não é gasto, é vivido. Se é vivido, pode ser aproveitado.

Por que se alimentar de dias tristes? Pensar neles infinita e repetidamente, sentir os sentimentos que eles lhe oferecem em detrimento dos seus. Como é a vida se vivida de forma árdua e sem alegria? Não é vida, é uma corrida para se esconder de si mesmo.

Tantos são aqueles que parecem bons e interessantes ao seu olhar treinado pelo mundo. Ricos, fortes, belos (uma beleza predeterminada pela mídia, é claro); pessoas que consomem, falam o que foram programados, vestem-se de etiquetas que demarcam seu poder de consumo, dirigem carros velozes, cuja velocidade máxima é inútil. Comem em lugares caros porque não sabem cozinhar. Acho que aprendemos a nos perder do que é verdadeiramente real, um chopp na feira sem compromisso, um amigo que paga mais da metade da conta só porque está ali, uma folga forçada no meio da tarde, um único pedaço de bolo que atravessou quinze quilômetros até você. Coisas comuns, de pessoas comuns, que parecem pequenas aos amantes do dinheiro. Pobres são eles que sofrem ao lado de pessoas de almas pobres e vazias de beleza.

Eu me lembro das flores brancas na frente da minha casa e não dos carros que passam correndo. Eu me lembro do cheiro das pessoas e não de quanto tinham na carteira (até porque poderiam não ter nada), eu me lembro dos sorrisos, e não do que vestiam... e dos meus dias mais terríveis, prefiro não me lembrar da dor, mas dos pássaros que vieram em um lugar impróprio a eles, mas vieram para me ajudar a desvendar o véu da arte do futuro. Vieram porque eu precisei que viessem, sem pedir nada, sem oferecer nada.

Títulos, posses, status, riqueza; de nada servem se meus dias não são plenamente felizes. E por plenamente eu afirmo que até os dias tristes têm a sua felicidade porque ali, na tristeza, sabemos quem somos e o que realmente vale apena.

Você trabalha demais para juntar dinheiro? Você faz o que não quer porque lhe parece preciso? Você se cerca de pessoas influentes? Que pena, eu trabalho muito, mas folgo muito, e amo o que faço. E só faço o que quero porque não há nada melhor que ser feliz todos os dias. Me cerco de amigos maravilhosos que não precisam influenciar ninguém. A tristeza, quando vem, é menor que a alegria da vida.

Ao acordar não temo o dia que virá, porque sei que ele virá repleto de maravilhas, pequenas, sutis e delicadas. Como a vida, tão delicada como um grão de poeira, mas é tudo o que move o universo.

Do que vale a vida se você se alimentar de dias tristes? Do que vale a vida se o seu cansaço for o pagamento pelo seu dia? Do que vale a vida se suas lágrimas forem a sua certeza? Do que vale a vida se o seu amor machuca?  Do que vale a vida se tudo o que você faz não te faz feliz?

O que é a vida fora da felicidade?

O que é uma vida cujo passar silencioso do tempo é tudo o que esperamos, para que ela passe rápido? Não é uma vida, claro. É um desperdiçar-se de si mesmo como migalhas deixadas em um caminho do qual a única lembrança é a escuridão.

E como queremos uma felicidade que nunca passe, mas aí está o segredo, o vai e vem da felicidade nos move e nos torna vivos e felizes. Claro que muitos ‘lugares’ oferecem descansos, retiros, renascimentos, tudo a 5 ou 7 mil por um final de semana. Ora, felicidade só para ricos? Ou quase ricos... isso não passaria de felicidade roubada e ela não faz feliz o ladrão.

A felicidade só existe se compartilhada, ainda que com uma única palavra ou um pequeno toque ou gesto.

A felicidade só acontece quando sabemos exatamente quem somos e, principalmente, quem não somos.

Ser feliz é não precisar ser feliz. É não buscar a felicidade em momentos de alívio, na loucura, nas festas infindas, nas compras imensas, nas fugas que são confundidas com viagens; e nos amigos que só estão ao nosso lado quando fugimos, pois também estão fugindo e só querem alimentar sua máquina de fuga.

Ser feliz é precisar de si mesmo, na essência sutil de cada dia. É estar ao lado de quem não nos oferece nada, porque não precisa oferecer, só a sua existência já nos basta.

Ser feliz é soltar as partes que foram acopladas a nós, mas não fazem parte do nosso eu, são apenas um fardo que nos prende para que não partamos com o vento.

Ser feliz é vencer o medo que nos afasta de nossa essência e, sem medo, nos jogar ao vento insano do precipício, onde a queda é o simples e puro movimento da vida. Afinal, chegamos ao chão no mesmo dia e no mesmo horário, não importa o caminho que tomemos. A escolha nos dá o direito de descer livres e com o vento no rosto, ou de descer arrastando e agarrados às pedras, com as mãos feridas e cheias de dor.

Fomos todos presos em jaulas de significado e regras. Temos muito medo de sair pois as jaulas parecem ser tudo o que existe. Mas, há algo interessante sobre isso: o medo acaba quando saímos.

Do que vale a vida se você se alimentar de dias tristes? Quando você tem a oportunidade de inundar-se de dias felizes.

Ame o frescor do tempo, respire a leveza da vida, abrace, sorria, caminhe ao lado, só faça o que te faz feliz, ame a todas as pessoas do mundo, mas só caminhe ao lado das que podem te amar. Crie. Cresça. Erre e aprenda feliz. Sonhe. Realize. Sinta o coração acelerar de paixão ao realizar. E só faça aquilo que o acelera. Escute a vida, ela canta o tempo todo uma bela canção. Respire o tempo, ele te preenche de vida. Troque a grandeza pela simplicidade, pois grande é aquele que precisa de pouco. Passeie ao lado de alguém, mesmo que sem motivo. Ouça os convites sutis e delicados. Abra os convites e olhe para a estrada à sua frente, que eles trazem. Segure uma mão, ainda que seja estranha ou pobre. Inspire o ar da vida e expire felicidade, que contagia. Inspire mais uma vez... e mais outra... e mais outra... e mais outra...

Há um presente dentro de você, que só cabe a você abrir, a felicidade.

Do que vale a vida sem a felicidade? Preciso rir se você achar que isso é algum tipo de vida. Se escolhemos viver, escolhemos ser felizes. Abrace-se. Ame-se. Viva-se.

Eu te desejo toda a felicidade do mundo. Não a tema. Ela é um direito seu.

terça-feira, 21 de maio de 2024

Apenas uma lição

 Muitas vezes ele disse que eu falava muito,

(que eu era muito ‘prosa’),

então, tome aí um poema em prosa... meu pai foi um homem pequeno, baixinho mesmo, magrinho, do tipo que dormia no meio do mato com animais perigosos, mas tinha medo de médico. Vai se entender. Na verdade era fácil compreender seu pensar e agir, eram bem simples e, até, limitados. Comia, bebia, dormia, vivia cada dia esperando o próximo e se lembrando do anterior. Contava muitas histórias sobre o que passou e não tinha muita criatividade para pensar o que viria. Me defenderia com a própria vida se eu tivesse precisado, nunca precisei, nem ele de mim nesse sentido, por sorte da vida nunca nos oferecemos essa proteção. Nem nunca nos oferecemos uma canção apesar dele cantar calango e eu nunca ter aprendido. Sempre se preocupou se eu estava ganhando dinheiro o suficiente e, quando eu não estava, nunca contei. Seu senso de humor era, digamos, expansivo demais; fazia piada com tudo e com todos, muitas vezes inoportunas... algumas pessoas vão dizer que, bem, eu herdei isso. Não posso negar que gosto de uma piada, mas posso negar que sejam inoportunas (mesmo que todos que conheço contestem isso). Um homem baixinho, trabalhador, meio confuso, às vezes bruto e insensível, mas sempre presente querendo dar presente se pudesse (inclusive fez questão de dar um presente à minha mãe na sua última semana). Acho que ele parou de entender o que eu falava e pensava, sei lá, quando eu tinha nove ou dez anos; se bem que ele não foi o único a passar por isso. Tentou me ensinar a fazer balaios de taquara (são cestos artesanais), mas eu nunca aprendi, minhas habilidades manuais são péssimas. Tentou me ensinar a trabalhar na roça, com a terra, mas eu nunca tive interesse em aprender. Nunca me ensinou a fazer o dever de casa, acho que não conseguiria, mas eu nunca pedi, nem a ele nem a ninguém. Não éramos muito de pedir ajuda, nisso acho que nos parecíamos bastante. Sempre teve orgulho do meu desempenho nos estudos, e quando passei para a universidade pública contou para o bairro inteiro, mesmo sem entender que curso eu fazia. Pode parecer que ele não poderia me ensinar muitas coisas; em sua defesa, quase ninguém pode mesmo, eu estou sempre correndo atrás de conhecimento e assumo que é difícil me acompanhar... mas há quem acompanhe... ah corridas, o velhinho magrelo que ganhava corridas morro acima aos sessenta anos. Nunca apostamos uma corrida, eu e ele, nunca apostamos nada, não disputávamos. Eu o compreendia, e isso bastava. Ele me aceitava sem compreender, e isso também bastava. Mas ele me ensinou uma coisa, usava muito uma frase quando eu era criança: “a palavra de um rei não volta atrás”. Bom, confesso que nunca fui a favor de reis ou absolutismos, sou feroz em defesa da liberdade e da queda das hierarquias. Mas a ideia de assumir o dito como compromisso quase sagrado me afeiçoava. Hoje, gostem ou não de mim, as pessoas sabem que eu cumpro a minha palavra. Eu cresci dando muita importância a isso. O que me faz não mentir, porque eu não preciso. Gosto de dizer que cresci em meio a homens e mulheres fortes, filhos de um homem forte, casado com uma mulher forte (ou, casado com a mulher bonita, como ele gostava de dizer). Há quem diga que devamos aceitar as limitações de nossos pais, que eles fazem por nós tudo o que podem fazer e nada mais. Eu vejo isso de uma forma diferente, acho que, de fato, ele me ensinou uma única lição: mantenha a sua palavra. Ele não pôde mais? Não vejo dessa forma, ele não precisou de mais. Bastou, era tudo o que eu precisava. Sou o homem que sempre quis ser, demorei, mas me tornei. Então, ele fez tudo o que precisava ser feito por mim (da parte dele), não precisei de mais nada, não faltou nada. Uma lição simples que marca a minha personalidade e faz parte de quem eu sou. E faz parte de tudo o que criei, porque nunca voltei atrás quando disse que criaria. Mas o tempo e a vida quiseram morder-lhe com força.  Não sei o que vieram cobrar e não tenho o direito de supor. Eu o vi ser derrubado com força. Eu o vi superar os maiores medos e pedir ajuda. Eu o vi ver a vida indo embora e sua preocupação era se cuidaríamos bem de nossa mãe. Eu o vi temer a morte como se ela fosse o seu mais feroz inimigo e, mesmo assim, dizer: venha, eu estou aqui. Ele preferiu batalhar a batalha que não poderia vencer ao invés de se assumir fraco. Eu faria exatamente a mesma coisa; acho que não nos parecemos só nas piadas. Você não perdeu a luta. A venceu por oitenta e três anos. Eu sou quem eu deveria ser. Meus irmãos estavam ao seu lado, com dedicação. Sua despedida estava cheia (e foram duas). Muitos se lembram do seu nome e se lembrarão por muito tempo. Se foram as cantigas, os balaios, as piadas... mas o que importa mesmo que é que tudo isso existiu. Agora é nosso turno, fica em paz e faça uma boa viagem. Como eu te disse poucas horas antes da sua partida: vai, pode ficar tranquilo, eu estou aqui... frase que te fez dormir. Agora durma o quanto precisar até acordar para a próxima vida. Quando acordar verá um mundo melhor; te dou a minha palavra.

Nem sei se isso é um poema ou uma crônica,

que se dane,

termino em versos, chamo de poema...

 

Boa viagem Jose Carlos de Oliveira (o Zito)... e obrigado por tudo.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Jorge o balão

 Jorge o balão, estava preso ao chão

ele fechava os olhos todos os dias, quase o dia inteiro

e sonhava em voar pelas nuvens, ganhar o mundo, enfrentar as tempestades

conhecer os pássaros

ver o sol nascer e se por entre as gotas finas da vida

que ecoam pelos ares.

 

Mas Jorge o balão estava preso ao chão,

mesmo tendo muito ar dentro dele, que podia levá-lo ao infinito,

ainda assim ele ficava lá,

sem mesmo se arrastar,

apenas ficava e reclamava do chão duro

e de nunca ter voado.

 

Jorge o balão tinha coisas demais dentro de seu cesto

muitas caixas pesadas, cheias de memórias, certezas

pessoas, sentimentos...

elas pesavam demais para ele subir.

Mas as caixas estavam fechadas e Jorge o balão

nem podia compreender o seu conteúdo;

sempre estiveram ali, fechadas, nunca foi diferente.

 

‘Ano que vem as caixas vão se abrir’

‘um dia elas vão entender o meu sonho’

‘quando as caixas virem o quanto eu amor voar elas vão me deixar livre’

‘eu amo as caixas, as caixas me amam’

‘se eu contar para elas o meu sonho elas vão se emocionar’

‘um dia essas caixas vão sair e me deixar leve’

...

‘ou melhor, elas vão ser balão comigo...’

 

E assim Jorge o balão passava seus dias, quer dizer, anos,

sonhando e esperando o futuro que viria cheio de mudanças,

sem perceber que o balão é pequeno demais para caber nele o futuro,

que só existia lugar para o presente...

mas ele esperava no futuro estar no céu sobre as nuvens,

sem saber que nuvens se desfazem muito rápido

e só existem em um pequeno momento, o agora.

 

Mas Jorge o balão tinha uma esperança linda

e seus olhos brilhavam ao pensar em voar pelo mundo.

Os anos, é claro, caminham a passos contínuos

alimentados pelo tempo e suas manias,

a principal delas, a mania de passar...

 

Jorge o balão, como todo balão ao longo do tempo,

começou a perder um pouco de ar

e começou a murchar.

Mas ainda dava tempo de voar,

só que agora as caixas estavam mais pesadas

e amor de Jorge o balão por elas aumentara com o tempo,

afinal,

ele reclamou dela todos os dias

e tornou-as a coisa em que mais pensava,

mais do que eu seu próprio sonho de deslizar sobre as nuvens.

 

Mas Jorge o balão nunca desistiu de sonhar

mas Jorge o balão nunca jogou fora as caixas pesadas demais

sempre as esperou pular ou se transformar...

‘Jorge, esqueceram de te dizer que caixas não pulam, caixas são sempre caixas’

 

Jorge o balão está preso ao chão

murchando, chorando, esperando ao lado das caixas

que elas se tornem asas para levá-lo aos céus...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Feliz vida inteira

A vida é um caminho que todos temos que percorrer,

às vezes com pressa, ou devagar,

e às vezes curta demais...

 

Ainda que o próximo passo seja o último,

é preciso que ele seja dado

porque respiramos a voz do tempo

que nos permite viver.

 

Em alguns dias você vai, ou não, festejar o natal,

o fim do ano...

e não importa o que faça, ou não,

vai ter vivido para chegar até lá.

 

Não importa quantos passos você ainda tenha a dar,

importa quantas vezes vai sorrir,

e fará alguém sorrir, ao longo de sua jornada.

Importa o que você aprendeu.

Importa o quanto você amou.

Porque se respiramos tempo,

respirar então é caminhar com a vida

seguindo o rio,

que muda a cada segundo, assim como eu e você

que já não somos os mesmos que começaram a ler este poema.

 

Quando, e se, for festejar,

acredite em tudo o que sentir vontade de acreditar;

mas se der, e só se der,

deixe um espacinho para acreditar na vida

para acreditar que toda vez que você respira

você está em comunhão com cada pessoa neste planeta.

Viver é ser tudo e todos

única e exclusivamente sendo você.

 

Se for compartilhar, seja o que for, até mesmo estas palavras,

lembre-se que compartilha consigo mesmo

porque cada um a quem estende a mão

é uma mão estendida a você.

 

Árvores enfeitadas, panetones, vinhos, ceias,

abraços, presentes, lembranças...

toda gota de vida contém a vida em si.

 

No natal, experimente amar o dia inteiro

e descobrirá que pode fazer isso todos os dias,

porque amando a vida, seja qual for,

ela passa a fazer sentido.  

 

Desejo a você neste natal, e em todos os dias de sua vida,

toda a felicidade do mundo;

dedico a você as minhas palavras e meu

feliz natal...

e feliz vida inteira...