sexta-feira, 27 de março de 2020

Oração ao teatro


Dai-me a presença do outro
porque o outro me importa e faz parte de mim.
Muda minha respiração para o lugar certo
para que as minhas palavras cheguem a todos.
Acerta minhas palavras em uma voz que não é minha,
mas fala através do universo.
À arte que tem a capacidade de me tirar de mim
e me fazer perceber que tudo é um,
peço um abraço pleno em verdade
e proteção contra a ignorância e o egoísmo.
Abra os meus olhos, transcenda minhas histórias,
torna-me arte
porque a arte há de nos salvar.
Me ensina a ser a melhor versão de mim
um contador de histórias e vidas
e que todos os meus sentimentos existam pela certeza de um mundo mais belo.
E todo o meu suor me leve por esse caminho
e todas as minhas palavras cantem a evolução que está por vir.
Mas você, teatro, já me dá tudo isso;
então só me resta um único pedido, aceita-me.
Porque eu e você somos um.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Elegia 41


Sentar sozinho em uma padaria
                                                e comer uma fatia de bolo...
talvez ler um livro, porque minhas palavras se perderam
então bebo as palavras de outros.
Ano 41, toda a razão desumana agora conhecida e experimentada.

Tenho um inimigo que dispara suas armas todos os dias
para que eu não me levante.
Tenho amigos,
mas nenhum deles sabe como eu me sinto.
Acordei no ano 41 e recebo várias mensagens
                                                               mas nenhum abraço.
A vida se tornou uma exibição de nadas
para que outros nadas vejam
e o vazio rasga as almas, ou o que resta delas.

Sentar sozinho, a solidão é a única companheira fiel.

Como um verso solitário
de palavras que já não encontro.
Como o silêncio dolorido
massacrado pelo ruído dos corações de pedra.

Sentado sozinho ao lado de palavras perdidas
que nunca serão ouvidas, pois só possuem forma
comemoro o ano 41
com o silêncio das minhas palavras apenas minhas.   

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

eu sou o futuro


O que me matou
me fez parar de escrever
não foi a doença da depressão ou ansiedade
não foi a pobreza o desprezo e medo do mundo
não foi meu coração ou minhas células
não foi a loucura dentro de mim
o que me matou
foi o presente e a certeza de estar nesse mundo
nessa sociedade
em que minhas palavras giravam num círculo infinito
infinitas mas se acabando em um fim que era o começo
e foram se apagando e sumindo da minha alma
que sumia com elas por ser parte delas
o que me matou
foi eu querer ser como os outros todos
acertado e seguro com dinheiro no bolso
não que eu não possa me acertar e assegurar ou ter dinheiro
mas o que mata é fazer do benefício ilusório o seu objetivo
porque aí a alma perece sem motivo
já que o mundo me faz acreditar que ganhei
só que perdi a mim mesmo e morri
o que me matou foi a ilusão de que a vida pode ser explicada
e que eu a explicaria
mas eu nem sabia o que falar pois a vida sumia de mim
e eu falava menos e repetia mais
e eu tinha todas as palavras e todas fugiam de mim
o que me matou foi esquecer-me de mim
eu sou o futuro e o passado
sou a insanidade do tempo quando se nega a passar
e com isso constrói a eternidade
eu sou as palavras ditas e não ditas
as conhecidas e desconhecidas
as lembradas e as apagadas da mente pequena
que crê na mentira de conhecer o mundo
através de um mundo que não existe
o que matou
esqueceu que sem tempo eu sou imortal
insano tempo da eternidade não explicada aos atemporais a você
insana mentira que nos abraça e faz crer na proteção
mas que suga nossas almas para se tornar ainda mais parecida
com nossos sonhos e desejos e os engana ditando o que nunca quisemos ser
o que me matou
se desfaz e volta a poesia cheia das palavras que nunca perdi
sem regra alguma e nada que pare a energia de vida
eu sou como o tempo e pertenço ao amanhã
porque o passado é história e o conto
e o hoje é feito de palavras e então eu tenho todos eles
que não irão se apagar em minhas mãos de poeta
o que não me matou tentou me matar
mas se esqueceu da poesia que não vem de lugar algum
e por isso está em tudo e nunca sucumbirá
à ilusão de um tempo perdido
e agora eu compreendo que estou em todo lugar e em todo momento
em mim e em cada um fora de mim
pois quanto mais longe mais dentro
eu sou o futuro e vou convidar você a ir comigo
onde o mundo não engana mais
e esse futuro nasceu escondido em seu coração
e é preciso acordar
não amanhã e sim agora
no tempo das minhas palavras

sábado, 11 de maio de 2019

Alimentamos as flores do ódio com as gotas do nosso egoísmo,
quando pensamos que é só nosso o direito
e que temos todo o direito sobre tudo.

Somos fadados a destruir vidas e sentimentos e histórias
porque queremos ter tudo para nós...
E sós,  caminhamos nossa estrada egoísta
cheia de torturas , temores e ódio.

Elegemos o ódio.
Aplaudimos o ódio.
Machucamos quem nos ama...
Tudo por um prazer pequeno, uma vontade de ter tudo aos nossos pés .

Alimentamos um mundo vazio e doente
dentro de nós
quando aceitamos achar que podemos tudo...

terça-feira, 12 de junho de 2018

eu sou o inverno


Eu sou o inverno
que faz crescer o fogo porque o frio corta a alma
e acende a loucura que o tempo jamais irá explicar.
Eu sou o gelo
que queima e paralisa e tira a dor e tira o medo do inferno
porque o fogo acelera e embrutece
todo esse fogo dentro de mim
que me torna de gelo por fora
de gelo pra fora
me torna inverno, frio e ardente.
Eu tenho um inferno
feito de gelo e fogo e tempos perdidos e daqueles que me cercam e cerceiam,
me deixando sem onde ou quando ou como
me fervendo a alma e congelando os desejos mais profundos.
Eu sou a arte
que supera o inverno e o fogo e encontra o homem
além do tempo e dos tempos dos homens
e do momento de si mesmo.
Eu sou aquele que sabe o que é
porque é o que sabe.
Sou o frio que queima
o fogo que esfria
o tempo que para
a arte que cria e descria o mundo à minha volta.
Eu sou o tempo
que roubei de mim para ferver e congelar e me perder sem caminho.
Eu sou o que sou,
eu sou eu.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

sombras do tempo

As palavras dilaceradas espalhadas como tempo perdido
me falam das mesmas estradas seguidas nas aventuras confusas
de uma mente que mente quando o tempo para
porque só fala a verdade diante do espelho, vendo os olhos do eu.

A força que dói nos caminhos pequenos,
voltados aos lados de uma história retorcida em mundos pequenos
mundos pequenos e homens grandes repletos de ser
repletos de amor e ventura.

Somos parte de um todo confuso e sem tempo,
somos parte de palavras mais belas que nossos sentimentos,
somos parte de partes pequenas de dentro de nós.

Há tudo entre nós,
e o universo se abre quando os olhos se tocam,
quando as mãos se misturam.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Escrever é preciso, respirar talvez
é que preciso do ar para deixar as palavras virem, talvez.
Esperar que a vida se preencha de felicidade é um dom,
ou uma mágoa confusa esquecida em meio aos atributos da vida.

Amar é uma forma de dizer que o tempo não é cruel,
mesmo que as palavras de amor rasguem as palavras escritas
e façam despedaçar as certezas perdidas
na linha do tempo que nos guia ao infinito dentro de nós.

Escrever é preciso, pois é tudo o que tenho de infalível
e de mãos dadas às minhas palavras
rabisco as minhas verdades ao som de um velho teclado de computador.

Escrever é preciso, é um risco que rabisco em meus sonhos,
pois sonhar é um abraço encantado que fazemos com a ilusão
de que a vida pode ser vivida e não escrita.