terça-feira, 21 de maio de 2024

Apenas uma lição

 Muitas vezes ele disse que eu falava muito,

(que eu era muito ‘prosa’),

então, tome aí um poema em prosa... meu pai foi um homem pequeno, baixinho mesmo, magrinho, do tipo que dormia no meio do mato com animais perigosos, mas tinha medo de médico. Vai se entender. Na verdade era fácil compreender seu pensar e agir, eram bem simples e, até, limitados. Comia, bebia, dormia, vivia cada dia esperando o próximo e se lembrando do anterior. Contava muitas histórias sobre o que passou e não tinha muita criatividade para pensar o que viria. Me defenderia com a própria vida se eu tivesse precisado, nunca precisei, nem ele de mim nesse sentido, por sorte da vida nunca nos oferecemos essa proteção. Nem nunca nos oferecemos uma canção apesar dele cantar calango e eu nunca ter aprendido. Sempre se preocupou se eu estava ganhando dinheiro o suficiente e, quando eu não estava, nunca contei. Seu senso de humor era, digamos, expansivo demais; fazia piada com tudo e com todos, muitas vezes inoportunas... algumas pessoas vão dizer que, bem, eu herdei isso. Não posso negar que gosto de uma piada, mas posso negar que sejam inoportunas (mesmo que todos que conheço contestem isso). Um homem baixinho, trabalhador, meio confuso, às vezes bruto e insensível, mas sempre presente querendo dar presente se pudesse (inclusive fez questão de dar um presente à minha mãe na sua última semana). Acho que ele parou de entender o que eu falava e pensava, sei lá, quando eu tinha nove ou dez anos; se bem que ele não foi o único a passar por isso. Tentou me ensinar a fazer balaios de taquara (são cestos artesanais), mas eu nunca aprendi, minhas habilidades manuais são péssimas. Tentou me ensinar a trabalhar na roça, com a terra, mas eu nunca tive interesse em aprender. Nunca me ensinou a fazer o dever de casa, acho que não conseguiria, mas eu nunca pedi, nem a ele nem a ninguém. Não éramos muito de pedir ajuda, nisso acho que nos parecíamos bastante. Sempre teve orgulho do meu desempenho nos estudos, e quando passei para a universidade pública contou para o bairro inteiro, mesmo sem entender que curso eu fazia. Pode parecer que ele não poderia me ensinar muitas coisas; em sua defesa, quase ninguém pode mesmo, eu estou sempre correndo atrás de conhecimento e assumo que é difícil me acompanhar... mas há quem acompanhe... ah corridas, o velhinho magrelo que ganhava corridas morro acima aos sessenta anos. Nunca apostamos uma corrida, eu e ele, nunca apostamos nada, não disputávamos. Eu o compreendia, e isso bastava. Ele me aceitava sem compreender, e isso também bastava. Mas ele me ensinou uma coisa, usava muito uma frase quando eu era criança: “a palavra de um rei não volta atrás”. Bom, confesso que nunca fui a favor de reis ou absolutismos, sou feroz em defesa da liberdade e da queda das hierarquias. Mas a ideia de assumir o dito como compromisso quase sagrado me afeiçoava. Hoje, gostem ou não de mim, as pessoas sabem que eu cumpro a minha palavra. Eu cresci dando muita importância a isso. O que me faz não mentir, porque eu não preciso. Gosto de dizer que cresci em meio a homens e mulheres fortes, filhos de um homem forte, casado com uma mulher forte (ou, casado com a mulher bonita, como ele gostava de dizer). Há quem diga que devamos aceitar as limitações de nossos pais, que eles fazem por nós tudo o que podem fazer e nada mais. Eu vejo isso de uma forma diferente, acho que, de fato, ele me ensinou uma única lição: mantenha a sua palavra. Ele não pôde mais? Não vejo dessa forma, ele não precisou de mais. Bastou, era tudo o que eu precisava. Sou o homem que sempre quis ser, demorei, mas me tornei. Então, ele fez tudo o que precisava ser feito por mim (da parte dele), não precisei de mais nada, não faltou nada. Uma lição simples que marca a minha personalidade e faz parte de quem eu sou. E faz parte de tudo o que criei, porque nunca voltei atrás quando disse que criaria. Mas o tempo e a vida quiseram morder-lhe com força.  Não sei o que vieram cobrar e não tenho o direito de supor. Eu o vi ser derrubado com força. Eu o vi superar os maiores medos e pedir ajuda. Eu o vi ver a vida indo embora e sua preocupação era se cuidaríamos bem de nossa mãe. Eu o vi temer a morte como se ela fosse o seu mais feroz inimigo e, mesmo assim, dizer: venha, eu estou aqui. Ele preferiu batalhar a batalha que não poderia vencer ao invés de se assumir fraco. Eu faria exatamente a mesma coisa; acho que não nos parecemos só nas piadas. Você não perdeu a luta. A venceu por oitenta e três anos. Eu sou quem eu deveria ser. Meus irmãos estavam ao seu lado, com dedicação. Sua despedida estava cheia (e foram duas). Muitos se lembram do seu nome e se lembrarão por muito tempo. Se foram as cantigas, os balaios, as piadas... mas o que importa mesmo que é que tudo isso existiu. Agora é nosso turno, fica em paz e faça uma boa viagem. Como eu te disse poucas horas antes da sua partida: vai, pode ficar tranquilo, eu estou aqui... frase que te fez dormir. Agora durma o quanto precisar até acordar para a próxima vida. Quando acordar verá um mundo melhor; te dou a minha palavra.

Nem sei se isso é um poema ou uma crônica,

que se dane,

termino em versos, chamo de poema...

 

Boa viagem Jose Carlos de Oliveira (o Zito)... e obrigado por tudo.

quinta-feira, 28 de março de 2024

Jorge o balão

 Jorge o balão, estava preso ao chão

ele fechava os olhos todos os dias, quase o dia inteiro

e sonhava em voar pelas nuvens, ganhar o mundo, enfrentar as tempestades

conhecer os pássaros

ver o sol nascer e se por entre as gotas finas da vida

que ecoam pelos ares.

 

Mas Jorge o balão estava preso ao chão,

mesmo tendo muito ar dentro dele, que podia levá-lo ao infinito,

ainda assim ele ficava lá,

sem mesmo se arrastar,

apenas ficava e reclamava do chão duro

e de nunca ter voado.

 

Jorge o balão tinha coisas demais dentro de seu cesto

muitas caixas pesadas, cheias de memórias, certezas

pessoas, sentimentos...

elas pesavam demais para ele subir.

Mas as caixas estavam fechadas e Jorge o balão

nem podia compreender o seu conteúdo;

sempre estiveram ali, fechadas, nunca foi diferente.

 

‘Ano que vem as caixas vão se abrir’

‘um dia elas vão entender o meu sonho’

‘quando as caixas virem o quanto eu amor voar elas vão me deixar livre’

‘eu amo as caixas, as caixas me amam’

‘se eu contar para elas o meu sonho elas vão se emocionar’

‘um dia essas caixas vão sair e me deixar leve’

...

‘ou melhor, elas vão ser balão comigo...’

 

E assim Jorge o balão passava seus dias, quer dizer, anos,

sonhando e esperando o futuro que viria cheio de mudanças,

sem perceber que o balão é pequeno demais para caber nele o futuro,

que só existia lugar para o presente...

mas ele esperava no futuro estar no céu sobre as nuvens,

sem saber que nuvens se desfazem muito rápido

e só existem em um pequeno momento, o agora.

 

Mas Jorge o balão tinha uma esperança linda

e seus olhos brilhavam ao pensar em voar pelo mundo.

Os anos, é claro, caminham a passos contínuos

alimentados pelo tempo e suas manias,

a principal delas, a mania de passar...

 

Jorge o balão, como todo balão ao longo do tempo,

começou a perder um pouco de ar

e começou a murchar.

Mas ainda dava tempo de voar,

só que agora as caixas estavam mais pesadas

e amor de Jorge o balão por elas aumentara com o tempo,

afinal,

ele reclamou dela todos os dias

e tornou-as a coisa em que mais pensava,

mais do que eu seu próprio sonho de deslizar sobre as nuvens.

 

Mas Jorge o balão nunca desistiu de sonhar

mas Jorge o balão nunca jogou fora as caixas pesadas demais

sempre as esperou pular ou se transformar...

‘Jorge, esqueceram de te dizer que caixas não pulam, caixas são sempre caixas’

 

Jorge o balão está preso ao chão

murchando, chorando, esperando ao lado das caixas

que elas se tornem asas para levá-lo aos céus...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Feliz vida inteira

A vida é um caminho que todos temos que percorrer,

às vezes com pressa, ou devagar,

e às vezes curta demais...

 

Ainda que o próximo passo seja o último,

é preciso que ele seja dado

porque respiramos a voz do tempo

que nos permite viver.

 

Em alguns dias você vai, ou não, festejar o natal,

o fim do ano...

e não importa o que faça, ou não,

vai ter vivido para chegar até lá.

 

Não importa quantos passos você ainda tenha a dar,

importa quantas vezes vai sorrir,

e fará alguém sorrir, ao longo de sua jornada.

Importa o que você aprendeu.

Importa o quanto você amou.

Porque se respiramos tempo,

respirar então é caminhar com a vida

seguindo o rio,

que muda a cada segundo, assim como eu e você

que já não somos os mesmos que começaram a ler este poema.

 

Quando, e se, for festejar,

acredite em tudo o que sentir vontade de acreditar;

mas se der, e só se der,

deixe um espacinho para acreditar na vida

para acreditar que toda vez que você respira

você está em comunhão com cada pessoa neste planeta.

Viver é ser tudo e todos

única e exclusivamente sendo você.

 

Se for compartilhar, seja o que for, até mesmo estas palavras,

lembre-se que compartilha consigo mesmo

porque cada um a quem estende a mão

é uma mão estendida a você.

 

Árvores enfeitadas, panetones, vinhos, ceias,

abraços, presentes, lembranças...

toda gota de vida contém a vida em si.

 

No natal, experimente amar o dia inteiro

e descobrirá que pode fazer isso todos os dias,

porque amando a vida, seja qual for,

ela passa a fazer sentido.  

 

Desejo a você neste natal, e em todos os dias de sua vida,

toda a felicidade do mundo;

dedico a você as minhas palavras e meu

feliz natal...

e feliz vida inteira...

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

A Raposa

 Eu sou como a raposa do Pequeno Príncipe,

você vai precisar me cativar.

 

Não basta chegar perto e tocar ou trazer o seu cheiro,

é preciso cativar a minha ética

mostrando o seu respeito a todos os seres humanos

e depois cativar a minha verdade

deixando transparecer sua alma sem medo de ser quem é

para em seguida cativar o meu silêncio

não dizendo nada, apenas deixando florir um sorriso

que te permitirá cativar o meu coração

ao ouvir o som do seu a badalar em meus ouvidos

e vai cativar o meu olfato

com o seu cheiro doce ou o aroma verdadeiro dos seus sentimentos

não antes de precisar cativar a minha pele

com seus toques suaves e gentis, ainda que fortes

para depois cativar o meu desejo

aguardando o tempo em que o ar entre nós se torne um só

e só assim cativar o meu espaço

até que eu chegue perto como se fôssemos um

para poder cativar o meu amor

e pertencermos à história entre nós

para poder cativar as minhas palavras

e se tornar a minha poesia.

 

Mas ainda assim será preciso cativar a minha arte

porque sem ela não serei eu quem estará lá,

e sim apenas uma sombra respirando uma história efêmera

que desaparecerá ao pôr-do-sol.

Minha arte é como a lua que surge à noite para não deixar o sol partir,

ela não dorme porque seu sono ilumina as histórias e sonhos.

Minha arte arrasta as marés para si mesmo sem tocá-las,

porque o tato, o cheiro, as palavras, os sorrisos, a ética

a verdade, o amor e tudo mais que eu puder citar

são meras fagulhas diante da existência;

a arte é existir e estar em tudo

sem precisar tocar, porque tudo nasce da luz que não se apaga.

 

Por isso é preciso cativar a minha arte

para que eu simplesmente possa existir.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Um dia

Tudo vem um dia

ou vai

toda certeza é só um pedaço de coisa que vai se acabar.

A certeza é nossa mentira de que sabemos algo,

porque nada nunca nos é dito,

mas a tudo tentamos compreender,

ainda que embalados na mentira da incompreensão.

 

Se vai passar?

Sim, vai

nada é capaz de durar para sempre.

Se vai acontecer?

Não há resposta

pois tudo se alinha de forma desalinhada ao acaso da existência

que por si só não existe,

apenas acontece em nossa percepção.

 

E o que tememos?

Tememos ser menores que o pedaço de coisa

e por isso tanta angústia,

porque somos

tanto somos que vagamos sobre esses pedaços

sem poder gerir a sua direção.

 

E o que há de belo?

A liberdade de só existirmos porque acreditamos que existimos.

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Quando o tempo grita: olá...

Teorizamos tantas respostas e verdades sobre o tempo que nos esquecemos

que um dia ele vai chegar e dizer: oi, vim levar o que é meu.

Memórias e histórias podem até se eternizar,

acho que minhas palavras talvez fiquem por muito tempo depois de mim,

o meu teatro sutil (ainda nascendo) vai atravessar eras.

E eu os fiz mesmo para isto. Sempre quis ser maior que o tempo que me foi dado

 

Mas o tempo não é meu, talvez eu seja dele.

Não sei ao certo...

Ele sempre flertou com as minhas palavras

ou elas com ele

nunca saberei dizer...

mas agora ele teima em acenar de diversas direções...

e nessas direções existem pessoas

 

A palavra eternidade nos ensinou a almejar pelo que não acaba,

mas esqueceu de nos dizer que tudo se transforma,

mesmo o que é para sempre, muda,

e quando muda, tudo pode abraçar o convite do tempo

e ir a um outro tempo, desconhecido por nós

 

Quando o tempo diz olá

sabemos que a vida é eterna por ser passageira.

Tudo o que surge e se vai, constrói o infinito

de um tempo finito que nos torna eternos

 

Uma única palavra

um único ensinamento

podem se transformar numa eternidade inesquecível.

A força do tempo adormece as nossas almas

que adormecidas

esquecem de abraçar a dor

que rola sobre nós

até que nos acostumemos a ela

 

Vou responder a você tempo

com palavras infinitas,

pelo menos até que você me abrace, ou, quem sabe,

mesmo depois do seu abraço.

Vou responder a você tempo

com histórias, palavras e ideias imortais

que se você tocar,

só se tornarão maiores e mais infinitas

 

Eis que chega o tempo do tempo ser tempo

maior do que eu

menor do que as minhas palavras...

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Um ano de solidão

 Minha voz está fraca, não é mais uma voz a ser ouvida de longe.

Meus passos estão cada dia menores e menos me levam a algum lugar.

Meu coração bate mais rápido, não de euforia, mas desconforto.

Minha mente está acelerada demais, não de inteligência, mas de remorso...

 

Desertos não são feitos de areia, são feitos de pedra de vários andares

onde estranhos nunca se conhecerão.

Desertos são feitos por corações que partem e não sabem voltar.

Desertos nos ensinam que a morte não é escuridão.

 

Todo homem que foge tem as memórias maiores do que seu caminho

e sua vida se torna lama seca que esvai com o vento

deixando sujeira nos lábios, secura na boca e vazio seu coração;

 

não há muitas palavras para se dizer nem muitas canções para se cantar,

não pretendo dar à poesia a responsabilidade de curar-me

eu quis seguir a trilha do deserto e agora me resta ser carcaça na areia...