sábado, 5 de setembro de 2026

Perfumificação

Qual o cheiro de uma palavra esquecida?

Onde se encontra a essência do que nunca aconteceu?

Eu me esqueci de sonhar, ontem à noite

e me esquecerei amanhã

porque hoje é o dia de uma poesia que não se pode cheirar.

 

As mortalhas são como palavras sem cheiro

que se perdem em tumbas de nós

embrulhando aqueles que nunca souberam

que eram reis.

E o cheiro da vida é tão insonso

que amortece a eternidade

e apaga

o que perdido

nos leva à solidão.

 

Perfuma-te poeta

abstrai-te de querer ser alguém

sê um cheiro que te embala no sono eterno.

Perfuma-te poeta

porque tuas palavras

cada dia

esquecem de chegar a mais um ninguém.

 

Perfuma-te poeta

não com odores bons,

mas com o preto das letras sobre a tela branca

repleta do vazio

onde se forma a poesia.

Perfuma-te

embalado em tuas páginas

imóvel no sarcófago do esquecimento.

Não levarás contigo ouro

ou sequer a lembrança do último abraço

porque este nunca te será ofertado.

Perfuma-te poeta

que um dia te encontrarão

mumificado nas palavras

que se esqueceu de dizer...

domingo, 30 de agosto de 2026

Alguém

O vento, nada mais é, que o ar que respiramos,

quando se move

e parece ser alguém...

 

Nós,

nada mais somos,

que uma fagulha da eternidade

que parece ser alguém

quando acontece

através da nossa respiração

vista pelos nossos olhos

tocada pela nossa pele

amada, pelo nosso desejo de sermos um.

 

Tudo é feito do que existe

e o que existe

é constituído de nós,

fagulhados em ventos respirados pela delicadeza do existir.

 

Alguém

qualquer um

sou eu

é você

e nada é mais cruel que a solidão

porque uma pessoa só

torna só a humanidade

que se preenche de armas, guerra e destruição...

 

A guerra, nada mais é, que o medo de sermos um

, um ninguém,

que respira para si

como se o ar fosse seu

ainda que só por alguns segundos permaneça em seus pulmões...

 

A paz, nada mais é,

que saber o seu cheiro

ouvir o som da sua respiração

conhecer a aspereza delicada da sua pele

e tocar sua alma com um olhar que diz ‘estou aqui’...

 

E o que seremos?

Alguém, ou ninguém...

porque somos apenas vento que se manifesta

e um dia voltará a ventar...


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Um dia a menos

Quer saber

não me pergunte se eu estou bem,

me dê um abraço, que estando bem ou não,

eu vou gostar.

Não diga:

estou aqui se precisar

pode contar comigo...

me arrasta pra um café, um chopp, uma volta na praça

porque não existe ‘quando precisar’

existe o agora, esteja nele.

 

Amanhã

eu terei um dia a menos de vida do que tenho hoje,

você também...

amanhã

não teremos nos visto ontem, e deixaremos para o depois...

por que?

O que há de tão importante no agora

que te impede de estar aqui

que me impede de estar aí?

 

Não me pergunte se estou com medo

segure a minha mão.

Se houver medo, ele passa, se não houver, ficarei feliz.

 

Não me pergunte se quero companhia,

que vá comigo...

só vai.

Porque se eu quisesse ficar sozinho eu não estaria lá

ninguém saberia onde estou...

quando quero estar só

eu sei onde ir e não convido ninguém...

se pode me ver,

é óbvio que eu quero que vá comigo.

 

Eu sou um homem das palavras

mas palavras só fazem sentido na presença

presença só faz sentido

quando se sabe o cheiro

o tom da voz

a textura da pele

quando é possível ouvir o brilho dos olhos...

 

Não confie no amanhã

abrace o agora

e deixe que a vida caminhe através de você

porque só há vida quando as vidas se tocam...


domingo, 5 de abril de 2026

Dia do Chocolate

A vida tem se resumido

às músicas em meu computador

e aos carros que passam inidentificáveis na rua em frente à minha casa

e sob esse silêncio

barulhento aos meus ouvidos

e mórbido à alma

rastejam as palavras que não se permitem calar.

 

Hoje é o dia dos chocolates

que para muitos significa renascimento

só não sei do que

já que tudo será do mesmo jeito amanhã

as postagens brilhosas de “feliz (seja o que for)”

substituíram os abraços e olhares

e tudo agora não passa de obediência às determinações dos algoritmos

e por eles permitimos obliterar a presença,

o abraço, a voz ouvida de perto,

porque tudo se resume ao tamanho de uma tela vertical.

 

O gato na janela não pode entrar

porque ficou esquecido

as flores na varanda não sabem florescer

porque secou-se a fonte

e quando lemos as postagens

já não sabemos mais ouvir a voz de quem postou...

 

E assim, avesso à ordem do momento

o poeta ainda ouve a própria voz ao escrever

mesmo que ela dure apenas por uma mísera sensação

de estar em si.

 

Seremos esquecidos.

Sim, seremos

porque o fazemos a nós mesmos.

 

Feliz chocolate que, certamente,

não é mais chocolate

feliz post

feliz stories

feliz dedo sobre a tela

feliz novo vídeo sobre chocolate...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Entropia

Sentimos o tempo passar porque tudo parece sempre caminhar

em uma única direção

e não pode voltar ou se refazer

não somos fisicamente capazes de estar no momento antes do agora

e por isso seguimos

submetidos ao tempo.

 

Eu achei que tinha encontrado uma palavra muda

que não fosse capaz de sair

através da minha voz

dos meus pensamentos ou

das minhas mãos sobre o teclado...

 

Algo se apagou

porque tudo caminha da ordem para a desordem

é como um vidro que se quebra

e nunca mais será o mesmo

mas pode quebrar novamente.

E somos assim,

corpos, mentes e alma (e no meu caso, palavras)

que caminham da ordem para a desordem.

Partimos do uno, nos fragmentamos em uma personalidade,

vivemos e seguimos fragmentando nossa vida até que ela para...

 

E algumas vidas quando param

parecem fazer tudo se quebrar continuamente

como se a desordem fosse uma erupção louca que extingue a nossa alma...

mas é isso,

seguir para a desordem e entender toda ela,

rumo à compreensão da ordem inicial onde tudo começa.

 

Achei que minhas palavras estavam mudas

quando você voltou para a ordem

e regrediu ao início, onde tudo sempre começa.

Mas elas não estão mudas

porque você sempre as ouviu.

 

Eu sigo a entropia da desordem

e contribuo com ela

escrevendo e falando sem parar

até que um dia, sobre um tapete estendido de palavras,

eu não me satisfaça em voltar para a origem de tudo,

porque sei que vou querer, boa amiga entropia,

que o início depois de mim

não seja o início antes da minha existência...

 

E até onde o tempo não existe

existirá o antes e o depois das minhas palavras.

 

Obrigado por me levar no primeiro dia na escola

para eu aprender a escrever.

Obrigado pelo meu primeiro livro,

obrigado por me apresentar ao teatro,

obrigado por me fazer ler em público com sete anos...

 

Segue seu caminho Terezinha,

por mais que, talvez, nenhum caminho exista a partir daí.

Sua onda retorna ao oceano com mais amor do que quando começou a se mover...

E que o oceano perdoe a minha ousadia

de roubar-lhe a unidade e manter-te viva em minhas palavras

que nunca serão apagadas,

mesmo depois que a minha onda quebrar na praia...

 

Nada é como já foi...

A menos que um escritor torne eterno o momento antes do agora

e tudo o que vier depois eterniza-se com ele

rompendo o tempo em um único instante...

 

Isso te faz estar sempre aqui Terezinha Amaral,

a voz que eu jamais irei esquecer...

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Austero

Agendo uma receita de vida para daqui a pouco e esse tempo nunca se encaixa

porque assim de certo modo o que temos é o que passa

austero e solitário é o rastejar das gotas de água lá fora

o gato que corre no telhado frio sem medo de fazer barulho

o teclado silencioso que mesmo assim é ouvido por causa do toque bruto dos meus dedos

que se acostumaram a escrever como um guerreiro se acostuma a sangrar.

 

É como se eu tivesse medo das palavras

porque as palavras trazem muitas certezas que tenho em mim

e me fazem pensar que tudo é possível e talvez, só talvez,

o possível seja, de alguma forma, assustador aos meus olhos cansados

já que a solidão do gato me apavora: como ele pode correr?

Se seu caminho é só seu

é porque ele enxerga no escuro e não tem medo de cair

e talvez eu enxergue através da escuridão da existência e não tenha medo de cair

o que me leva a não correr e não pular.

 

Eu sei uma resposta que nunca respondi.

 

Talvez eu não queira responder sozinho

ou só não seja capaz

o que me afugenta da certeza é a eternidade pela qual não se pode pagar

e assim os dias se amedrontam escondidos atrás de uma noite infinita

que insiste em roubar-lhes o ar.

 

Sinto que sou uma pluma que esqueceu que pode cair sem se quebrar

e ao deslizar-se em um lugar só, sem se mover

percebe que tudo é um único ponto de pulsão de vida

e reconhece as mãos e mente que somem pontos que podem matar

e reconhece palavras e recursos que podem compartilhar a mente e as mãos

mas nada se partilha

porque um gato deitado na caixa

jamais correrá rompendo a escuridão...

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Eu e Você e a Arte

Não, isso não é um poema de amor, é um poema numa prosa estranha, de permanência ao lado junto em conjunto ou separado através de uma mão que é dada, no toque ou apenas na concordância do vamos juntos com motivos ou sorrisos ou apenas silêncios encostados em nossas faces que não se encostam mais porque nossa espécie está se esquecendo de como é conectar-se e já não somos mais capazes de saber como é a temperatura, o cheiro e a textura daqueles ao nosso lado isso se existir um lado para ficar.

Às vezes sinto o cheiro da arte exalando de um corpo colado numa alma colada na essência da beleza de artistar-se e enveredar-se sobre um vento que não sopra e mergulhar naquilo que chamamos de um mundo inventado, tão verdadeirizado que nenhum outro mundo se torna preciso no pedaço conciso de eternidade que ousamos tocar para embelezar as lacunas do eu que se preenche da única vida que existe, uma vida que consiste em bailar ao som do tempo para que o tempo se funda com a imensidão

Arrasta seu pé do lugar parado encrustado da centelha das regras vazias que parecem enevoar a nossa visão de tudo aquilo que não se pode ver e apenas existe no cheiro da essência não exalada aos corações empedrados que choram ao invés de se aquecer porque o fogo foi encarcerado no vai e vem do dia capitalista, um pedaço da semana capitalista que é parte do mês capitalista enfiado no ano capitalista que alimenta a eternidade de pegar o dinheiro e gastar ou guardar esperando um dia gastar quando precisar e nada mas nada mesmo acontece além de se deixar a alma derreter em um cofre enferrujado.

Eu e você podemos fagulhar a arte e chegar perto tão perto até que o espaço desapareça porque quando todo espaço desaparece e nos aproximamos infinitamente explodiremos em um sol imensamente brilhante feito não de fogo mas de matéria que se funde continuamente e só quando este sol brilhar é que a vida vai acontecer sem deixar de ser planejada ou organizada já que agora é apenas um engano de planos que nunca existiram se pensarmos que a vida sem o sol nunca foi vida e sem vida nada do que se fez de fato existiu e todo amor se esvaiu através de nossos perdidos passos nunca dados por nossos pés fincados no chão que nunca nos pertenceu.

Abraça-me, não como dois mas como sol, a única estrela de que realmente faz sentido em nossas vidas porque tomamos o mesmo sol e respiramos o mesmo ar e bebemos a mesma água desse mundo e com um pensamento pouco profundo acreditamos que somos dois eu e você separados e não artizados um ao outro pela nossa arte não nossa já que ela compreende toda a criação

Cheire sua mão ao acordar e busque aspirar que cheiro realmente existe em você entendendo quem mora aí dentro.

Escute sua respiração antes de se levantar e ouça o canto que a sua vida sopra o tempo todo para acordar o seu coração.

Toque o seu rosto e entenda a fusão você e torne-se uma coisa só ligando espírito corpo e percepção de vida.

Permita nascer o sorriso ainda antes dos seus pés tocarem o chão e entenda que nele está contida toda a felicidade do mundo.