Qual o cheiro de uma palavra esquecida?
Onde se encontra a essência do que nunca aconteceu?
Eu me esqueci de sonhar, ontem à noite
e me esquecerei amanhã
porque hoje é o dia de uma poesia que não se pode cheirar.
As mortalhas são como palavras sem cheiro
que se perdem em tumbas de nós
embrulhando aqueles que nunca souberam
que eram reis.
E o cheiro da vida é tão insonso
que amortece a eternidade
e apaga
o que perdido
nos leva à solidão.
Perfuma-te poeta
abstrai-te de querer ser alguém
sê um cheiro que te embala no sono eterno.
Perfuma-te poeta
porque tuas palavras
cada dia
esquecem de chegar a mais um ninguém.
Perfuma-te poeta
não com odores bons,
mas com o preto das letras sobre a tela branca
repleta do vazio
onde se forma a poesia.
Perfuma-te
embalado em tuas páginas
imóvel no sarcófago do esquecimento.
Não levarás contigo ouro
ou sequer a lembrança do último abraço
porque este nunca te será ofertado.
Perfuma-te poeta
que um dia te encontrarão
mumificado nas palavras
que se esqueceu de dizer...
