sábado, 5 de setembro de 2026

Perfumificação

Qual o cheiro de uma palavra esquecida?

Onde se encontra a essência do que nunca aconteceu?

Eu me esqueci de sonhar, ontem à noite

e me esquecerei amanhã

porque hoje é o dia de uma poesia que não se pode cheirar.

 

As mortalhas são como palavras sem cheiro

que se perdem em tumbas de nós

embrulhando aqueles que nunca souberam

que eram reis.

E o cheiro da vida é tão insonso

que amortece a eternidade

e apaga

o que perdido

nos leva à solidão.

 

Perfuma-te poeta

abstrai-te de querer ser alguém

sê um cheiro que te embala no sono eterno.

Perfuma-te poeta

porque tuas palavras

cada dia

esquecem de chegar a mais um ninguém.

 

Perfuma-te poeta

não com odores bons,

mas com o preto das letras sobre a tela branca

repleta do vazio

onde se forma a poesia.

Perfuma-te

embalado em tuas páginas

imóvel no sarcófago do esquecimento.

Não levarás contigo ouro

ou sequer a lembrança do último abraço

porque este nunca te será ofertado.

Perfuma-te poeta

que um dia te encontrarão

mumificado nas palavras

que se esqueceu de dizer...