domingo, 5 de abril de 2026

Dia do Chocolate

A vida tem se resumido

às músicas em meu computador

e aos carros que passam inidentificáveis na rua em frente à minha casa

e sob esse silêncio

barulhento aos meus ouvidos

e mórbido à alma

rastejam as palavras que não se permitem calar.

 

Hoje é o dia dos chocolates

que para muitos significa renascimento

só não sei do que

já que tudo será do mesmo jeito amanhã

as postagens brilhosas de “feliz (seja o que for)”

substituíram os abraços e olhares

e tudo agora não passa de obediência às determinações doa algoritmos

e por eles permitimos obliterar a presença,

o abraço, a voz ouvida de perto,

porque tudo se resume ao tamanho de uma tela vertical.

 

O gato na janela não pode entrar

porque ficou esquecido

as flores na varanda não sabem florescer

porque secou-se a fonte

e quando lemos as postagens

já não sabemos mais ouvir a voz de quem postou...

 

E assim, avesso à ordem do momento

o poeta ainda ouve a própria voz ao escrever

mesmo que ela dure apenas por uma mísera sensação

de estar em sim.

 

Seremos esquecidos.

Sim, seremos

porque o fazemos a nós mesmos.

 

Feliz chocolate que, certamente,

não é mais chocolate

feliz post

feliz stories

feliz dedo sobre a tela

feliz novo vídeo sobre chocolate...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Entropia

Sentimos o tempo passar porque tudo parece sempre caminhar

em uma única direção

e não pode voltar ou se refazer

não somos fisicamente capazes de estar no momento antes do agora

e por isso seguimos

submetidos ao tempo.

 

Eu achei que tinha encontrado uma palavra muda

que não fosse capaz de sair

através da minha voz

dos meus pensamentos ou

das minhas mãos sobre o teclado...

 

Algo se apagou

porque tudo caminha da ordem para a desordem

é como um vidro que se quebra

e nunca mais será o mesmo

mas pode quebrar novamente.

E somos assim,

corpos, mentes e alma (e no meu caso, palavras)

que caminham da ordem para a desordem.

Partimos do uno, nos fragmentamos em uma personalidade,

vivemos e seguimos fragmentando nossa vida até que ela para...

 

E algumas vidas quando param

parecem fazer tudo se quebrar continuamente

como se a desordem fosse uma erupção louca que extingue a nossa alma...

mas é isso,

seguir para a desordem e entender toda ela,

rumo à compreensão da ordem inicial onde tudo começa.

 

Achei que minhas palavras estavam mudas

quando você voltou para a ordem

e regrediu ao início, onde tudo sempre começa.

Mas elas não estão mudas

porque você sempre as ouviu.

 

Eu sigo a entropia da desordem

e contribuo com ela

escrevendo e falando sem parar

até que um dia, sobre um tapete estendido de palavras,

eu não me satisfaça em voltar para a origem de tudo,

porque sei que vou querer, boa amiga entropia,

que o início depois de mim

não seja o início antes da minha existência...

 

E até onde o tempo não existe

existirá o antes e o depois das minhas palavras.

 

Obrigado por me levar no primeiro dia na escola

para eu aprender a escrever.

Obrigado pelo meu primeiro livro,

obrigado por me apresentar ao teatro,

obrigado por me fazer ler em público com sete anos...

 

Segue seu caminho Terezinha,

por mais que, talvez, nenhum caminho exista a partir daí.

Sua onda retorna ao oceano com mais amor do que quando começou a se mover...

E que o oceano perdoe a minha ousadia

de roubar-lhe a unidade e manter-te viva em minhas palavras

que nunca serão apagadas,

mesmo depois que a minha onda quebrar na praia...

 

Nada é como já foi...

A menos que um escritor torne eterno o momento antes do agora

e tudo o que vier depois eterniza-se com ele

rompendo o tempo em um único instante...

 

Isso te faz estar sempre aqui Terezinha Amaral,

a voz que eu jamais irei esquecer...