sábado, 6 de agosto de 2011

Frames


Ônibus pela manhã
balançando muito
muitas bolinhas no olho que dormiu pouco
cabeça encostada no vidro
olhar úmido
manhã nublada
olhos fechados reconhecendo o caminho
ônibus correndo
balanço que sacode demais o estomago
lembranças da noite de formatura
muitos sorrisos
ela muito feliz
amigos
canudos com confetes dentro
apitos
cartazes
mais amigos
família
conquista
frames de um dia feliz que eu vejo
recortados pela simplicidade do meu olhar
bar
muito tempo no bar
conta barata
primeira dose de whisky
até que é fraquinho
muito sono agora
três horas dormidas num sofá
os sofás ficam muito longe das camas
longe demais
só queria alguns momentos a sós
nestes três dias de festa
dormir algumas horas abraçado
ter o meu momento egoísta e deliciosamente apaixonado
mas estamos condicionados a um humor que não é o meu
várias doses de whisky
uma aula de valsa no bar às 3 da manhã
um ensaio que não vai existir
um poema cujos dedos estão cansados ao digitar
vou dormir depois do poema
como me fez falta o óculos de sol
vou dormir porque tem baile hoje à noite
vou levar o óculos de sol para voltar no domingo de manhã
volta chata e sem graça
o baile vai ser lindo
muitos sorrisos
muitos amigos
muitos abraços
e mesmo que a luz dura do sol bata em meus olhos
vou voltar pra casa feliz
sou um convidado de honra
ainda que um convidado
não virei família
não vou dormir abraçado
mas vou dormir com o cheiro da lembrança
desses três dias felizes
em que me orgulho de você
ela linda no baile de azul
felicidade
felicidade condicionada
mas ainda felicidade

terça-feira, 2 de agosto de 2011

___________________________

Eu não estou aqui
por isso eu não sei dar nomes
e me confundo com o desenrolar de cada história.
Não sei mais pensar,
não sei mais perceber as sensações;
tudo ficou preenchido de um espaço tão grande
que me perdi dos meus próprios desencontros.

Eu não estou aqui sentado
diante de um computador e de um blog
porque ninguém me disse que eu poderia estar
e nesse mundo tudo é uma questão de poder ou não poder.
Cresci desobediente,
teimoso, gritador, baderneiro quando preciso;
descobri com o tempo como é aceitar a ordem,
como é não estar,
e ainda,
como é querer não estar para que o outro esteja.

Eu não estou aqui,
porque o eu que eu conhecia
tinha a cabeça erguida como um girassol em pleno meio dia,
olhando audacioso para a vida...
seguindo seu destino,
os amigos se foram,
o empregos também,
os desejos se encerraram e sinto tanta falta de tanto que nunca fiz...
tudo porque nunca quis me esquecer do que sou feito,
mas hoje não estou aqui,
porque me sinto tão desintenso, tão não certo,
não sei nem se o que faço agora é sentir.

Não estou aqui,
porque aqui, neste mundo em que não poder é o maior direito,
eu não vivo,
não em conformidade com ele;
e se me conformo, como o tenho feito,
ou não estou aqui,
ou não estou mais vivo...
a questão é que,
dói tanto que a dor me prova que a vida ainda permaneceu,
então não permaneci eu.

Não estou aqui,
e se não estou o que estará em meu lugar?
Um homem que vai enriquecer porque o conforto de sua vida é o que importa?
Um homem que um dia vai usar roupas mais caras do que o que muita gente gasta com comida por meses?
Um homem que se esqueceu do que foi feito?
Não quero que este seja eu,
e se o for,
que a dor se finda,
e só assim saberei que não existe mais vida...

Não estou aqui,
porque o aqui que eu conheço
é onde todos podem tudo,
é onde a vida se renova e nunca se esquece de ser vida.
É onde eu sonhei estar
e descobri que eu não sonhei ser quem eu sou.
Cada um escreve a sua história e minhas mãos escrevem qualquer história,
e ando escrevendo uma na qual
um homem aprende que obedecer o sistema
porque todos à sua volta o veem como certo,
acatar suas regras e deixar
que a vida transcorra dentro de muros fechados à verdadeira essência humana
é o correto.
Não quero contar essa história, por isto não quero estar aqui comigo.
Não me sou boa companhia.

Não estou aqui,
porque aqui está aquilo que eu mais repudio,
e se isto sou eu,
qual o sentido de pensar ser alguma coisa?
Não estou aqui,
porque aqui não posso ver seus olhos,
e é tudo o que eu mais preciso agora,
sua voz demorou tanto pra chegar e já se foi...
mas fomos obedientes,
alguém disse que não podia,
então não podia,
aceitamos que fosse assim...
e de tanto não poder tantos morrem
enquanto outros desperdiçam sua vida num luxo que não conseguem digerir.
Por isso eu não estou aqui,
porque se eu estivesse não estaria calado.
Não sei o que não aguento mais perder, não sei o que quero ganhar.
Só sei que o que perdi
talvez nunca mais encontre,
eu.

Não estou aqui,
está apenas o poema
e um recorte desestabilizado da memória do que um dia pensei ser.
Sou fraco, obediente
e aceitei as imbecilidades que a humanidade chamou de certas,
justo esta humanidade que construiu sua história
baseada em guerras, destruição e terror.
E quanto mais somos quietos, mais as atrocidades nos cercam.
Por isto eu não estou aqui
porque no mundo em que desejei viver os homens gritam contra as atrocidades,
mas aqui eu as aplaudo com eles.
O certo e o errado,
criado por quem?
Aceitado por todos nós...

Não estou aqui,
porque se estiver,
já deixei de viver há muito tempo...

sábado, 30 de julho de 2011

Palavras Faladas

No dia em que mais precisei das palavras faladas
adivinha...
to virando a noite nas palavras escritas.
Já deixei um poema no hd e to cuspindo esse no blog,
porque eu preciso me alimentar de alguma coisa,
jantei há poucos minutos, minha pressa era em chegar ao telefone,
não senti o gosto, poderia ter comido qualquer coisa,
precisava do sabor das palavras,
não só das minhas,
mas do conjunto das minhas com as de outra pessoa...
saboreio minhas solitárias palavras escritas,
um saborear afobado e ainda desmedido,
que elas irão saciar e acalmar.

Nem sempre o tempo corresponde ao que precisávamos,
às vezes é necessário correr por causa do ônibus,
nem sempre a espera e o objetivo nos levam
onde realmente queríamos chegar,
é preciso ir dormir.
Mais do que dormir ou comer
eu preciso de palavras.

Queria o suave sabor das palavras faladas
para estabilizar a poeira que escorre dos meus dedos,
sou possuidor de palavras escritas,
entregues a mim pelo anonimato das verdades,
pela assimetria dos segredos
e pela eternidade do silêncio.
Palavras que tornam curto o tempo e indormível a noite.
Palavras que recobrem os olhos de estranhas sensações
e dormem solitárias, banhadas em poesia.

As palavras escritas não se calam,
as palavras faladas podem ser apagadas;
assim como os desejos podem ser esquecidos.
Sei que não sou um merecedor de todas as palavras;
por isto deus me deu o silêncio e todas as palavras escritas.
E o que fiz foi me acostumar à incerteza dos sons que não ouço
e por isto muitas vezes me calo e me falo em versos quebrados quem sou.

Sou poeira de poesia
e o que escorre de minhas mãos
chama-se vida,
vida que deixo ir
pelas palavras que escrevo,
pelas palavras que eu não falo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

o dia dela

Jamais vou me esquecer do dia em que ela me deu a mão ao atravessarmos a rua,
parecia um momento simples,
mas nunca foi um momento,
foi uma eternidade.

Descobri os segredos do amor
de forma singela e pura,
sabendo que a cada sorriso
haveria um próximo dia
recheado de sorrisos...
Descobri a paz em meu coração inundado de palavras
e as palavras
me disseram que eu sabia
para onde ir;
fui até você.
Estou em você.

Sua presença em minha vida é uma certeza insofismável
e o seu dia é o meu mais delicioso dia,
pois sei que o tempo passa,
mas nossas almas se encontraram em harmonia.

Adoro seu cheiro,
seus desejos,
seu colo,
seu carinho,
sua sinceridade...

Feliz dia do amor,
feliz aniversário
minha doce e bela
...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O caminho é cercado de muitas estradas
com destinos indistintos
olhos molhados da poeira que fica
e deixa marcas indeléveis às sombras da vida

os grãos se misturam aos nossos grãos
e juntos formamos poeira
que passa com o vento
e se esvai com o tempo
como um lento caminhar de verdades
descritas em silêncio
pela loucura dos sonhos
e pela fraqueza de pilares na vida

o homem recoberto de poeira
agachado próximo ao solo
de olhos vendados pelas suas mãos
tenta ver o tempo e
conhecer o silêncio a
ponto de se escorrer em palavras

o tempo
limitado a estar ao lado do homem
discursa sua verdadeira história
e não requer licença ou pedidos de contentamento
apenas fala
de forma impecável
que a vida envelhece calada
e que quando grita
as outras vidas fecham os ouvidos
e não ouvem os gritos
e não ouvem o tempo

minha história é cercada de muitos eus
de muitos rascunhos e
de muitos não deu certo
meus sonhos são embalados na voz doce
que me consola ao telefone quando me perco
que me abraça e me aperta
quando me esqueço de minha sanidade emocional

meu caminho
possui duras pedras que me deixam lento
talvez forte
mas cada vez mais lento
isento de tempo e serenidade
isento talvez de tudo a que eu possa me recolher

eu sou do tempo
filho dos segundos que passam
herdeiro da poeira dos séculos
construtor de caminhos
perdido entre eles
sem buscar a saída

eu sou do tempo
eterno velejador de poeira
e entre todas e tantas e unica certeza
um pequeno rabiscador de palavras
palavras pequenas
palavras discretas
silêncios da minha alma
desentendida com o tempo

sexta-feira, 3 de junho de 2011

ponto de luz

Quando a arte e a beleza começam a desaparecer no coração dos homens
há aqueles que se mantem firmes
erguendo um pequeno e incansável ponto de luz,
afim de que um dia,
todos aqueles que queiram retornar à plenitude,
tenham para onde se guiar.
E os que erguem a pequena luz
sabem que serão massacrados, chamados de imbecis,
inconsequentes, irresponsáveis, loucos...
mas erguem,
não conseguem soltar, nunca quiseram soltar.

Quando a verdade e o amor não mais forem formas de se entender a vida
o poder o fará,
se é que existe algum poder em depender de bens materiais,
de luxo, riqueza e conforto.
Mas a estes é que é direcionado todo olhar de quase toda vida.
Os homens não são bons,
precisam definir entre ser bem ou mal sucedidos financeiramente,
e isto se mede pelo quanto arrotam arrogância e desprezo.
Mas aqueles que seguram a pequena luz não sabem ser nada além de homens bons.

Somos criados pro trabalho,
não somos criados pro amor;
um carro nos leva mais longe que o amor...
leva o nosso amor onde o amor a pé jamais irá chegar.
Somos treinados pelo dinheiro a nos tornar marcadores de moedas,
mercadores de verdades,
verdadeiros e silenciosos itens de uso comum.
Mas o ponto de luz ainda está lá.

O mercado nos dá shows (prá mais de 10 mil pessoas)
motéis (compre um carro)
roupas (quanto mais cara mais status)
e com isto cultivamos nossas flores estercadas em
arrogância, hipocrisia, soberba... falsidade... ... medo

muitos pontos de luz foram apagados,
alguns ainda pulsam.
Poucas pessoas têm a coragem de voltar à pureza...
me incomodo com 10 mil pessoas em um lugar só,
nunca fui...
quanto mais barata é o que posso pagar...
cultivo minhas flores
com palavras...

Quando a luz desaparecer dos olhos de todos aqueles que conheço
me restará uma pequena luz nas mãos,
erguidas,
e quando as mãos não puderem mais se erguer
espero que a luz não se apague...

sábado, 18 de dezembro de 2010

CAIXINHA DE NATAL

Bem no final daquela rua, onde não havia quase nada além de muito silêncio e pessoas sem sorrisos. Às vezes brigavam e quebravam o silêncio. Às vezes não. Quase sempre. Ao lado da entrada, esquecida, havia uma caixinha de natal que fora posta ali há muitos anos por um senhor que morou na vila; havia morrido e poucas pessoas ali o tinham conhecido. A menina que não gosta de natal aprendeu a não gostar por olhar todos os anos a caixinha e não encontrar nada nela. Ela sempre acreditou que o papai Noel voltava do portão e nunca teve coragem de entrar. Ela cresceu assim, sem renas ou trenó, entrando e saindo da vila. Trabalhou, estudou, trabalhou mais, estudou mais ainda, foi se tornando mulher, aprendendo sobre o mundo, fazendo amigos, descobrindo verdades e mentiras, construindo segredos e histórias.

Os dias passavam, os anos corriam. A caixinha ficava velha e cada vez mais esquecida. Ninguém nunca a abriu, ninguém nunca colocou nada lá. Apenas um menino mal educado, que agora não é mais um menino, escreveu nela com corretivo “vai tomar no cu”. A menina que não gostava de natal também nunca gostou do que o menino escreveu lá, mas ela não tinha motivos para apagar  ou querer concertar a caixinha, já que ela não significava nada, apenas mostrava o quanto estavam todos esquecidos e perdidos naquele canto pequeno e aconchegante do mundo. Ela olhou a frase numa tarde em que o sol se escondia devagar, em que gatos famintos miavam no vizinho e cachorros abandonados roubavam as sacolas de lixo. A frase a intrigou. Por que alguém escreveria isto? Se perguntou a menina. Por que usar as palavras de forma tão mal usada? Qual o estímulo para fazer desse jeito? Não havia respostas, entendimento ou sequer empatia. Não houve também a vontade de limpar.

Em casa, à noite, a menina que não gostava de natal ficou se lembrando das palavras escritas na caixa. Agora já não significavam mais nada. Eram apenas letras enfileiradas que poderiam ter todos os significados do mundo. As letras a acompanharam enquanto descansava e depois, bem mais tarde, entraram com ela no banho. A menina escreveu letras desligadas e depois palavras soltas nas paredes do banheiro, onde a água quente evaporava e criava uma camada de vapor condensado. Em pouquíssimo tempo elas escorriam e sumiam. Durante a noite sua cabeça escutou palavras. Seu coração desejou palavras. Durante a noite não aconteceu nenhum sonho. O barulho das brigas na casa ao lado não a atrapalharam dormir, ela não estava com sono. Ela não tinha desejos, apenas uma vontade de palavras que ficava esquecida mas não se calava dentro dela. Nesta noite, a menina que não gostava de natal não conseguiria dormir, foi o que pensou por várias horas. Quando percebeu já era de manhã, o sol invadia sua janela e incomodava os seus olhos. Ela havia perdido a hora de ir para o trabalho. Sabia que não poderia chegar tão atrasada e que deveria criar uma desculpa. Tentou marcar médico, tentou criar alguma coisa, ia falar que o ônibus quebrou, mas se lembrou que ia andando. Preocupada e não conseguindo pensar em nada, se sentou na sala, de frente para um calendário velho pendurado na parede. Viu então que era dia 24 de dezembro e que estava de folga. Sorriu aliviada por saber que não iria perder o emprego. Percebeu que este foi o seu primeiro sorriso trazido pelo natal.

Saiu pela vila. Olhou os visinhos. Estavam todos do mesmo jeito. Quietos ou resmungando. Na sua casa também era assim. Um clima cinza e esfumaçado que parecia tomar todo o local. Não haveria festas ou comemorações por ali. A menina que não gostava de natal e não era mais menina cresceu no meio dessa fumaça sem olhar para fora ou para dentro e sem buscar novas histórias. Naquele dia as palavras a incomodavam. Não gritavam no seu ouvido, mas ficavam por ali, o tempo todo. Ao seu redor. Tocando seu rosto, tocando seus olhos, tocando suas percepções. Ela percebeu o clima lento em que uma mulher fazia a faxina da casa, esfregando o chão com uma vassoura molhada, observando apenas a sujeira que saía. Do outro lado o vizinho pregava uma placa de madeira próximo ao muro; seus movimentos remetiam apenas às batidas no prego. Uma garota sentada em uma cadeira de praia velha estava lendo; seus olhos se concentravam mais em seus pés do que no livro. A única música que se escutava era um funk mal feito que vinha de algum lugar não identificado da rua. Pela janela de uma casa era possível ver três pessoas assistindo TV. Cada uma em um sofá. Passava um daqueles programas chatos de início de tarde e nenhum deles olhava a TV, na verdade não olhavam lugar algum. O tempo passava indeciso por ali, sem saber se ficava ou se ia. Mas ao olhar a caixinha de natal rabiscada ela entendeu que ela ficava, o tempo nunca se fora, sempre ficou à espera...

Já em casa, a menina que não gostava de natal reparou que o sol começava a sumir. E quanto mais a luz diminuía mais as palavras se tornavam sólidas diante dos seus olhos, mesmo que ela não as reconhecesse. Parecia que estavam dentro dela, talvez por isto tenha passado o dia todo sem comer e a mistura das palavras com a fome a incomodava muito. Ouve-se um barulho forte, parecia um acidente de transito um pouco abaixo na rua. Todos saíram para ver ou que aconteceu, ou pelo menos para ficar perto, porque talvez ali ninguém soubesse realmente ver alguma coisa.

A menina que não gostava de natal não pensou não hesitou e não temeu. Correu dentro das casas e escreveu palavras após palavras nas roupas das pessoas.

“olhe para o lado, alguém espera pelo seu sorriso”
“tenha sempre nas mãos a capacidade de tocar um rosto de forma suave”
“para sonhar é preciso ter a coragem de dormir em paz”
“para viver é preciso ter a coragem de sonhar”
“um abraço pode construir uma história interminável”
“não resista a um sorriso, responda com um desejo”

E assim foi por vários minutos até que ela escutou a movimentação de pessoas que voltavam e correu para sua casa. Parou. Respirou fundo. Escreveu também nas roupas que estavam ali. Se deitou e se cobriu. Dormiu.

O sol na manhã do dia 25 não invadiu sua janela, pediu para entrar com carinho e a acordou de forma calma. Estava fraca e sentindo desanimada, afinal, não comera durante todo o dia anterior. Pensou em não levantar, em ficar ali até que o dia acabasse. A menina que não gostava de natal queria deixá-lo passar enquanto dormia. Mas seus olhos não a obedeceram e se abriram. O tempo não a escutou e deixou que o dia começasse lento esperando-a acordar. Então o dia a acordou e a convidou a sair. Ela disse não.

Virou para o lado, fechou as cortinas, cobriu o rosto com o travesseiro para abafar o som das brigas. Não ouviu brigas. Não ouviu silêncio. A fome era forte e ia acabar fazendo-lhe mal. Mas ela não queria se levantar. Era natal e ela não gostava do natal. O sol insistiu e convidou o vento a lhe ajudar. Juntos, um empurrou a cortina e o outro iluminou o quarto. Fizeram isto por várias vezes até que a menina se levantou. Sentou-se na cama com as mãos nos joelhos olhando o chão. Não havia mais palavras em sua cabeça. Elas não a incomodavam mais. Sentiu vontade de sair. Não tinha forças para levantar. Suas mãos tremiam um pouco, sua cabeça doía, sua boca estava seca. O barulho que vinha do lado de fora a incomodava. Não era o funk que vinha da rua. Estava mais perto. Muitas vozes ao mesmo tempo. Não parecia uma briga. O vento então entrou direto e acariciou o seu rosto por mais que ela não acreditasse em carinhos. Ela se levantou, lavou o rosto, pegou um copo de água e o barulho não sumia. Ela saiu.

A vila estava diferente, um ar mais leve, um som gostoso de vozes e música baixa. Estavam todos do lado de fora comemorando juntos. Todos vestidos com as roupas em que a menina escreveu durante a noite. Ela não conseguiu mais andar após ver toda aquela movimentação. Um a um eles se aproximaram dela e a abraçaram desejando feliz natal e dizendo obrigado. As pessoas de sua casa também estavam lá.

A menina teve a curiosidade de olhar para o lado e viu a caixinha de natal, ainda estava velha. Haviam apenas rabiscado por cima da frase. Mas algo parecia diferente; então ela se aproximou e viu que havia algo lá dentro. Abriu. Era um bilhete em um pedaço de papel.
“obrigado. Você não mudou as nossas vidas. Você a trouxe para nós”

A menina que não gostava de natal chorou. Chorou e sorriu. Era natal.