A vida tem se resumido
às músicas em meu computador
e aos carros que passam inidentificáveis na rua em frente à
minha casa
e sob esse silêncio
barulhento aos meus ouvidos
e mórbido à alma
rastejam as palavras que não se permitem calar.
Hoje é o dia dos chocolates
que para muitos significa renascimento
só não sei do que
já que tudo será do mesmo jeito amanhã
as postagens brilhosas de “feliz (seja o que for)”
substituíram os abraços e olhares
e tudo agora não passa de obediência às determinações doa
algoritmos
e por eles permitimos obliterar a presença,
o abraço, a voz ouvida de perto,
porque tudo se resume ao tamanho de uma tela vertical.
O gato na janela não pode entrar
porque ficou esquecido
as flores na varanda não sabem florescer
porque secou-se a fonte
e quando lemos as postagens
já não sabemos mais ouvir a voz de quem postou...
E assim, avesso à ordem do momento
o poeta ainda ouve a própria voz ao escrever
mesmo que ela dure apenas por uma mísera sensação
de estar em sim.
Seremos esquecidos.
Sim, seremos
porque o fazemos a nós mesmos.
Feliz chocolate que, certamente,
não é mais chocolate
feliz post
feliz stories
feliz dedo sobre a tela
feliz novo vídeo sobre chocolate...
